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Café com rosie - Letícia Silva

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AI Girls is a female brazilian technology community that aims female protagonism in the field of artificial intelligence and data science!
Updated on ・10 min read

Diversas pessoas que estão iniciando não encontram materiais escritos numa linguagem acessível e acabam muitas vezes se sentindo excluídas desse universo e desistindo. Meu objetivo é quebrar esse paradigma.

A Letícia é das mulheres mais incríveis e inspiradoras, cientista de dados e Pyladie de coração ela abriu seu coração pra gente nessa entrevista ao falar sobre como surgiu sua participação nas comunidades, e como surgiu o Dados para Julieta.
Vamos lá?!


Raio-X

Letícia: Oiie! Meu nome é Letícia Silva, tenho 22 anos e sou Cientista de Dados. Eu atuo como Head de Dados na 2Mi, sou organizadora de comunidades, palestrante, podcaster, escritora e também dou aulas. Tenho formação como Técnica em informática e estou graduando em Ciência da Computação.

Tenho uma filha de quatro patas, a Cristal (uma shitzu de dois anos, super dócil e amorosa) e um irmão de seis anos que cuido como se fosse filho, o Pietro. Tenho mais dois irmãos, a Sophia, de 12, e o Ewerton, de 27 anos. Atualmente moro sozinha, mas sempre volto pra ver meus pais e essas figurinhas incríveis <3

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Rosie: Quais são seus hobbies? E áreas de interesse?

Letícia: Adoro fazer muitas coisas, o que até fica meio difícil por conta do tempo, mas sempre tento dar um jeitinho. Amo ler, estar em contato com a natureza, cantar, cozinhar, sair com os amigos, escrever (sejam artigos ou poemas), dançar, conhecer lugares novos, fazer projetos voluntários e me reunir com a família.
Eu amo História. Desde pequena, era uma das minhas matérias favoritas na escola (depois de Ciência e Matemática), e gosto de entender como e porque as coisas acontecem.

Sou bem analítica e gosto de observar tudo ao meu redor, compreender por qual motivo um determinado acontecimento leva uma pessoa a tomar uma atitude x, como as coisas se interligam, qual o impacto que uma ação do passado pode ter no futuro, e a melhor parte: como podemos tentar solucionar problemas (e até evitá-los) tendo mais empatia, consciência e uma comunicação não violenta.

Rosie: Quando foi seu primeiro contato com tecnologia e como foi?

Letícia: Foi com uns três anos. Meu pai comprou um computador daqueles bem grandes sabe, branco, com Windows 98. Lembro dele até hoje. Eu queria porque queria mexer nele, e meu pai não deixou. Disse que eu ia quebrar e que era muito caro, tinha que tomar cuidado.

Certo dia, ele me pegou apertando os botões do teclado, e me falou algo que nunca esqueci: “Se você não aprender informática, vai ficar desempregada.” e eu não entendi, fiz cara de choro (tudo o que eu queria era ser bailarina/cientista/fotografa, exatamente nessa ordem) e ele me explicou. “Informática é a profissão do século, filha. Se você não aprender, vai ficar pra trás”.

Hoje vejo o impacto que isso teve na minha vida e o quanto sou grata por ter entrado nova na área. Desde os 14 anos eu sabia que queria seguir nisso, e foram muitos cursos e aprendizados até realmente estar na faculdade.

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Rosie: Como foi o seu primeiro contato com ciência de dados ou Inteligência Artificial?

Letícia: Eu estava no segundo ano da faculdade, fazendo iniciação científica no IEAv (Instituto de Estudos Avançados). Lá tinha o desafio de construir uma plataforma de coleta de dados de radiação cósmica em Java (pasmem, não era Python), e eu trabalhava com uns arquivos grandes. Não é nada comparado ao grande volume de dados que vi em outras situações, mas os arquivos de texto eram pesados e difíceis de ler. Comecei a me interessar por aquilo, conversar com pessoas da área e ler sobre.
Foi aí que descobri um minicurso que ia rolar na Escola de verão do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de Introdução à Data Science. Me inscrevi. Eu fiquei maravilhada em ver o quanto de coisa poderia ser feita com dados (ele mostrou um exemplo de Machine Learning com um dataset de Íris, bem famoso) e como aquilo podia desmistificar e responder as coisas. Eu fui falar com ele pra perguntar onde podia procurar mais conteúdo e me aprofundar, e ele me convidou para fazer uma iniciação científica com ele, aplicada à Ciência de Dados.

Rosie: Eu vi que você tem um projeto lindíssimo chamado Dados de Julieta, onde compartilha dicas, eventos, posts. Me conta mais sobre esse seu projeto, o que te inspirou a fazer ele, porque vc escolheu esse nome para ele?

Letícia: Sim!!! O Dados de Julieta nasceu com intuito de compartilhar conhecimento, principalmente sobre Ciência de Dados, com a galera.

Eu sinto muita falta de conteúdos iniciantes sobre o tema, sabe? Por esse motivo resolvi fazer algo para ajudar, tenho muito isso de “se não existe, eu vou fazer”, e boa parte dos conteúdos que crio vem desse pensamento. Não porque quero criar um milhão de engenhocas (até gostaria de ter tempo pra isso), mas porque são coisas essenciais para disseminar conteúdo e ajudar os outros. Diversas pessoas que estão iniciando não encontram materiais escritos numa linguagem acessível e acabam muitas vezes se sentindo excluídas desse universo e desistindo. Meu objetivo é quebrar esse paradigma.

A história do nome é engraçada. Ele foi uma das ideias que tivemos pro nome do podcast do Colaboradados (o Coluna7), e tudo começou porque enquanto equipe do projeto conversava, eu comentei que estava assistindo Cartas para Julieta (um dos meus filmes favoritos), e as outras duas pessoas estavam com fome, uma querendo comer queijo e a outra goiabada. Foi aí que surgiu “Dados de Julieta”.

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Rosie: Quais são ou foram os desafios ao produzir esse projeto?

Letícia: São inúmeros. Um dos principais é conseguir orquestrar todo o trabalho a ser feito para que ele tenha uma periodicidade. Por ser envolvida em muitas iniciativas, eu acabo precisando dar prioridade para certas coisas durante um determinado período de tempo. É preciso muita disciplina pra não se perder e acabar dando menos atenção do que deveria.

Acho que o último é lidar com as críticas. Por mais que um trabalho seja incrível e demande muito esforço, sempre há alguém para reclamar. Acredito muito em críticas construtivas, mas vejo que existe um fenômeno das pessoas se acharem no direito de falar mal de algo simplesmente por ter alguém lá, se expondo aos holofotes. É preciso ter muita empatia e resiliência nessa situação.

Carreira

Rosie: Parabéns pelo seu projeto Dados pra Julieta! Mas conta pra gente porque você escolheu trabalhar com ciência de dados?

Letícia: Gosto de solucionar problemas, investigar as informações atrás de algo e aprender sobre assuntos diversos enquanto faço isso. Por ser multidisciplinar tanto nos conteúdos que a abrangem quanto nas áreas em que conseguimos aplicá-la, cientistas de dados em geral acabam tendo um background bem amplo.

É quase uma mistura de Ada Lovelace (criadora do primeiro algoritmo de computador da história) com Miss Marple (investigadora dos contos de Agatha Christie) haha.

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Rosie: Atualmente a comunidade é composta por muitas mulheres que estão em transição de carreira e que querem atuar na área, você acredita que é preciso uma formação acadêmica para atuar na área? Se sim, qual seria a melhor formação?

Letícia: Não necessariamente. Acredito sim que pessoas que tenham formação em cursos de tecnologia, matemática, física, estatística e outros que utilizem algo de programação, principalmente alguma linguagem de programação ou software que demande de lógica (como Contabilidade, Geoprocessamento e Marketing, por exemplo), ou atuem em profissões que façam uso de um grande volume de dados (alô jornalistas de plantão) tenham uma certa facilidade por já terem algumas das skills exigidas. Mas isso não é um impedimento para entrar na área, eu conheço muita gente que trabalha com isso e não possui formação no assunto.

Existem diversos materiais de qualidade disponíveis na internet, que ajudam a entender diversos conceitos importantes da área. É totalmente possível para uma pessoa da área de humanas ou para qualquer outra se tornar um Data Scientist. O que é pedido - e isso independe se você vem de tecnologia ou não - é muito estudo e dedicação. São muitos assuntos para se dedicar, e se não houver um foco, você pode se perder fácil.

Para quem tiver interesse e quiser aprender mais, escrevi um manual para o Colaboradados, um veículo colaborativo sobre Transparência e Open Data no Brasil, intitulada “Para iniciar em Data Science”, você pode acessar clicando aqui.

Rosie: Eu vi que você participa de várias comunidade femininas e já foi voluntária em vários eventos de tecnologia para mulheres. E eu gostaria de saber o que te motiva a participar de comunidades e o que é comunidade para você?

Letícia: Acho que é a questão de sororidade. O fato de existir um mundo onde mulheres apoiam outras mulheres, e faz com que elas se ajudem, queiram o crescimento uma da outra, acolham quem está chegando ou quer entrar em tecnologia, empoderem e incentivem essas minas através da tecnologia. Ao invés de competirem entre si, elas se juntam e tornam mais fortes. Isso é encantador!!

Comunidade para mim é um ambiente de troca de experiências, acolhimento e transformação. É o lugar onde eu me sinto “em casa”, mesmo estando em ambientes que nunca frequentei. As pessoas causam essa sensação de liberdade e aconchego, e quando você para pra analisar, parece que conhece elas há anos! É muito doido, mas muito gostoso também. Brinco que não lembro como era a minha vida antes da comunidade, e é real: ela ganhou muito mais cor depois que conheci esse mundo.

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Assuntos da atualidade!

Rosie: Como você vê a importância da ciência de dados e da inteligência artificial nos dias atuais?

Letícia: Acredito que seja praticamente inevitável se deparar com essas tecnologias hoje em dia. Elas evoluíram muito desde seu surgimento, e cada vez se torna mais explícita a necessidade de utilizá-las para ter um insight com base no dados ou automatizar uma atividade, compreender melhor um determinado cenário, prever situações de risco. Elas são úteis para essas e outras diversas coisas, o que acaba chamando a atenção de mais gente.

O ponto é: IA e ciência de dados são temas que acabaram ficando “hypados” e que as pessoas querem usar em literalmente tudo. Isso é perigoso. Não precisamos entender só o lado legal deles, existe um lado obscuro a ser estudado também.

E falando em estudos, tá aí algo que vejo uma galera perdida: tem muita gente que não faz ideia de por onde começar, e acaba consumindo conteúdos caros e/ou baixa qualidade só por ter muita propaganda a respeito na internet. O ideal é pesquisar bem o que você tá afim de aprender e perguntar pra alguém que entenda sobre. De preferência, tente encontrar um conteúdo gratuito sobre o assunto primeiro.

Rosie: Acho que você deve ter ouvido falar do uso de ciência de dados e fake news na campanha do Donald Trump em 2016. O que você acha desse uso da ciência de dados?

Letícia: Sim. Essa questão de vazamento de dados e fake news é bem forte pra mim e gosto de estar sempre lendo algo sobre. Nesse caso, a Cambridge Analytica utilizou dados de testes de personalidade do Facebook para traçar perfis psicológicos, né?!
O que aconteceu foi que eles roubavam os dados através do thisisyourdigitallife, um app que pagava a galera pra responder uma série de perguntas, mas não informava que tinha acesso a dados de curtidas e localização, não só de quem fazia o teste, mas dos amigos dessa pessoa também. E foi muita gente que participou disso (aproximadamente 270 mil pessoas).

Lembro que em 2018 fui na Python Brasil, que aconteceu em Natal/RN, e o Facebook era um dos patrocinadores do evento. Eu fui no stand deles e questionei sobre o assunto, perguntei como a empresa vinha lidando com isso. Os profissionais me informaram que o presidente da empresa se reunia uma vez por semana com os desenvolvedores para analisar a situação, e ver as próximas medidas a serem tomadas.

Vejo a falta da importância de compreender sobre segurança, há muitas dúvidas sobre qual navegador usar, aplicativo de mensagens, sistema operacional mais seguro… Mas aí elas vão e falham no primeiro anúncio de “conteúdo 100% gratuito” que pede email e CPF. É difícil sim ser uma pessoa que esteja segura em tudo, mas precisamos tentar: ser curiosos, ler as licenças dos softwares que usamos, ler aqueles textos chatos e pequenos dos termos de aceite do que utilizamos (aquelas letrinhas que ninguém liga, sabe?), e questionar mesmo.
Se as pessoas soubessem o quanto o dado é importante e o quão caro ele é (a ponto de não ter preço), elas dariam mais valor a isso.

Rosie: E para finalizar, qual dica você dá para as mulheres que querem entrar na área?

Letícia: Que sejam fortes e preparem o psicológico. Muitas das mulheres que tenho contato sofrem situações machistas e por vezes abusivas, e acabam saindo de TI por conta disso. Não podemos abaixar nossas cabeças e por mais difícil que seja, estamos sim conquistando um espaço que é nosso por direito. Algumas pessoas fazem questão de esquecer nomes como Dorothy Vaughan, Mileva Máric, Hedy Lammar, Katherine Johnson, Frances Allen, Grace Hopper e tantas outras… Eu faço questão de lembrar.
Sobre a questão de nós, mulheres, reproduzirmos machismo: fomos (e muitas ainda são) ensinadas, de diversas formas e aspectos, que no fim somos umas rivais das outras. Acontece que, cabe a cada uma de nós uma desconstrução constante e maior sororidade uma para com a outra. O famoso “estender a mão sem julgar”, sabe? Acho que só dessa forma conseguimos nos fortalecer e nos tornarmos mais unidas e preparadas para acolher outras mulheres que querem adentrar a área.

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Extra!

Rosie: Mais uma perguntinhaaa...Qual é a sua linguagem de programação favorita: python ou R?

Letícia: Essa é fácil, e acho que todo mundo que me conhece sabe a resposta hahaha. É Python! Python é bonito, simples e claro - e isso ajuda muito pra quem tá começando. O fato de ter boas práticas e padrões de desenvolvimento bem estabelecidos colabora para o aprendizado ser mais fácil e a curva de aprendizado cada vez mais baixa, proporcionando mais autonomia e liberdade no código, eu até escrevi sobre isso.


E aí, gostaram? Não esqueçam de deixar o seu feedback pra gente, para que possamos melhorar nas próximas entrevistas.
Até uma próxima,
AI Girl

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Discussion (2)

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Pâmella Araújo Balcaçar

Gostei da entrevista com PyLady Letícia.
👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽

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AI Girls Author

Ebaaa!! Ficamos felizes em saber que gostou Pâmella =)