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Código legado: um exercício de arqueologia e compaixão

Henrique Lobo Weissmann (Kico)
Progr(amo), logo existo. Fundador da itexto.
・8 min read

Texto escrito em 2014
Na esmagadora maioria das vezes que escuto alguém reclamando do fato de estar lidando com código legado me vêm um dos dois pensamentos a seguir : "chorão detected" ou "tá reclamando da coisa errada". Também não é raro ver software ser jogado fora para ser reescrito do zero e sentir aquela certeza de que irá dar errado e dá. A postura diante do legado é errada. Amo legado e vou te contar as razões.

Minha evolução com o legado

evolution

Quando comecei a programar sequer pensava na possibilidade de lidar com código alheio. Aliás, eu só via código que fosse um exemplo ou outro que usava para aprender por simples cópia. Até que o legado caiu sobre mim e, junto com ele, hoje percebo, uma forte dose de arrogância.

"Arrogância é a confiança excessiva nas próprias habilidades." - Norberto Bobbio

Olhava  para o código escrito por outros colegas, a maior parte pessoas que não atuavam mais na empresa (e jamais conheci) e os tinha como algo tosco. Me perguntava como a pessoa não sentia vergonha de deixar aquele "legado". Pegava aquele "trem" e reescrevia do zero. Sentia o triunfo e me orgulhava do feito: expunha aos demais como um troféu que erguia alto para que todos vissem.

(e hoje vejo diversas daquelas mesmas pessoas como heróis)

"Curiosamente" tempos depois eu precisava alterar novamente aquele código que havia reescrito por que "um ponto ou outro não haviam sido levados em consideração". O tempo passou e hoje fica claro que era um sintoma.

O tempo voa e trabalhei em projetos iniciados e finalizados por mim, apenas iniciados por mim e tantos outros que não foram iniciados por mim. E nesta história bem mais de 50% da minha carreira foi gasto manipulando código que não fui o pai, mas no máximo um padrinho ou tio generoso.

Aos poucos passei a gostar do legado que foi se tornando meu maior professor. Aprendo, cresço e enriqueço hoje graças a ele. Enquanto foi meu adversário eu era símio: hoje que o tenho como parceiro sou "sapiens" (ou penso ser (arrogância?)).

Como o legado se tornou meu parceiro

Percebi o valor do legado quando minha arrogância me socou a cara. Lembra no início deste post quando falei de um "certo sintoma" que ocorria quando eu reescrevia algo do zero? Yeap: eu estava jogando fora conhecimento importante sem me dar conta. Não estava melhorando a criatura, mas piorando-a. E sabem o que é legal? Só caiu a ficha quando o Joel Spolsky "me contou". Bendito tapa!

Foi quando percebi que eu só olhava para o código e não o lia. Por coincidência na época fazia uma matéria no curso de Filosofia sobre hermenêutica e este acabou me indicando o caminho: não era apenas ler, mas sim interpretar e absorver. Eu devia "absorver como Kico" e "interpretar como quem o escreveu".

(Quando você acorda para o fato de que mais de 85% da vida do software ocorre depois que é entregue fica nítido que a sua visão de mercado "talvez" fosse bem limitada. :) )

Legado como arqueologia e compaixão

Minha dificuldade ao interpretar o legado estava em meu ego. Por que com tantos SGBDs disponíveis o sujeito tinha de usar JUSTO O MALDITO MICROSOFT ACCESS para aquela aplicação Delphi/VB? Por que tantas classes anônimas naquela aplicação desktop Java? Por que aqueles padrões de projeto tão fora da nossa realidade naquele projeto Java EE?  Te respondo: por que quem escreveu o sistema muito provavelmente (quase 100% de certeza) aprendeu a fazer daquele jeito.  Duvida? Leia algum livro antigo sobre Delphi, Java ou Java EE. Como sei isto? Nas fotos abaixo está uma mínima parcela das "evidências" que acumulo no escritório (e que se um dia Nanna jogar fora teremos uma briga séria).

java_magazines Revistas antigas valem OURO

pilha_de_ouro Livros antigos também (e alguns tem diamantes no meio!)

Quando um cliente me procura com um sistema antigo uma das primeiras coisas que me diz é: "acho ele velho, gostaria que fosse reescrito do zero". Meu primeiro passo é discordar e iniciar o trabalho arqueológico: compro livros publicados na mesma época das tecnologias usadas naquele software, corro atrás de revistas relacionadas, navego por antigos fóruns, artigos, blogs, enfim: inicio um processo de pesquisa profundo, como se fosse um livro.

O objetivo é ter compaixão. O que é compaixão? É o posicionar-se no lugar do outro e com isto entender seu modo de agir. Se conseguir acesso direto ao programador, melhor ainda! Posso saber mais a respeito do seu ambiente de trabalho na época, talvez suas frustrações e como isto influenciou o seu código. Isto me permite inclusive, quando meu ego está fora de alcance, saber se aquela pessoa de fato sabia o que estava fazendo (tem noção da quantidade de pessoas (me incluo) que aprendeu a programar usando arquivos de ajuda?).

Muitas vezes tento construir um ambiente de desenvolvimento próximo ao da época. Consigo isto tendo em casa alguns computadores mais antigos, de preferência com o software daquele tempo. Isto me permite eliminar o risco de estar lidando com incompatibilidades com versões atuais das bibliotecas, sistema operacional (máquinas virtuais valem ouro), etc.

(acredite, quando você se depara com uma máquina cujo HD tem 80 Mb e seu PC 16 Mb de RAM você passa a entender imediatamente o porquê da forma daquele código)

Agora que tenho o modo de pensar e o ferramental da época posso trabalhar com segurança e ver como o software funcionava naquela época.

Como evoluo legado

Com base nestas informações, aí sim altero o código fonte. Se fica nítido que o programador não conhecia a tecnologia, o trabalho fica fácil: consigo melhorar a qualidade apenas aplicando as boas práticas da época. Repare: não vou fazer uma transposição direta para o presente ainda. Chamo esta fase de "restauro" pois não estou evoluindo arquiteturalmente a criatura, mas sim "colando alguns cacos soltos com testes e muita paciência".

Sim, eu adoro "Mestres da Restauração" que passa no History Channel! Sim, eu adoro "Mestres da Restauração" que passa no History Channel!

Feitas estas melhorias implemento uma ou outra nova funcionalidade que o cliente queira. Normalmente a produtividade está alta neste ponto pois já conheço a criatura. O processo de upgrade é gradual e nunca direto. Por exemplo: se o sistema é feito em Delphi 3, não vou migrá-lo direto para o Delphi XE. Primeiro passo pelo Delphi 4, depois 5 e por aí vai. (faço muito isto com versões antigas do Grails).  Muitas vezes há recursos da época que não foram usados na aplicação: em alguns casos é quase um upgrade.

(e este processo de upgrade de plataforma muitas vezes é desnecessário. Será que seu sistema em Grails 1.3 precisa realmente do Grails 2.4?)

Se a plataforma tecnológica não é mais suportada (FoxPro, Visual Basic, Clipper, algum framework que "não existe mais"), sei exatamente em qual ponto parar. Daí pra frente precisamos decidir se há de fato algo que possa ser reaproveitado naquele sistema, se é possível encapsulá-lo de alguma forma ou mesmo se a partir daquele momento podemos iniciar um trabalho de reescrita (sempre o último caso) tendo como base a geração de alguma forma de documentação.

Se algo funciona torço para que meu ego não a quebre.

Minha visão de TI graças ao legado

O principal ganho que o legado me trouxe foi uma visão muito mais rica sobre as tecnologias que vejo serem lançadas. É incrível como diversas das coisas que as pessoas hoje bradam como novidade são apenas a reencarnação de algo que funcionou muito bem (ou não) no passado. Virtualização como algo moderno? Na década de 60 o OS/360 já tinha. Execução dinâmica de código? CODASYL previa na década de 50. Manifesto reativo? Olha para os mainframes. E por aí vai...

Você adquire mais pontos para fazer conexões entre as coisas: fica mais fácil assimilar a "novidade" que, na maior parte das vezes é uma nova roupagem ou ponto de vista sobre algo que já foi resolvido no passado e agora estão redescobrindo ou aperfeiçoando.

Não é raro que eu leia sobre tecnologias do passado que provavelmente nunca vou tocar (mainframes, COBOL, Clipper). Não tanto por que eu "adquira mais pontos", mas sim por que passo a ter um respeito muito maior por aqueles profissionais do passado que com tão "pouco" criaram as bases deste mundo incrível que temos hoje.

(tenho uma imensa lista de heróis entre estes profissionais)

Concluindo?

Espero neste post ter exposto o aspecto positivo do legado que, a meu ver, supera em muito o "negativo". As reclamações que fazemos ou ouvimos costumam gerar esta imagem terrível de algo que, convenhamos, além de ser um mercado imenso e muito maior que o "green field" também nos fornece uma visão de TI muito mais profunda.

Acredito que  este "mal estar" diante do legado se deva em grande parte à nossa formação. Nas faculdades e cursos técnicos é muito raro termos exercícios que exijam dos alunos interpretar e entender código: na maior parte das vezes você apenas escreve. Talvez se houvesse uma matéria de "arqueologia" ou mesmo hermenêutica a coisa fosse muito diferente.

Também acredito que seja importante saber do que estamos reclamando. Será que é do código legado ou da empresa que não nos permite lidar direito com ele devido a uma má gestão? Será que a reescrita é realmente o melhor caminho sempre? Será que os problemas que temos não é a simples falta de compaixão e nossa pressa exagerada para resolver logo o problema e com isto nos impede de pensar (e aprender)?

Esta é minha visão sobre o legado. Torço para que tenha mudado a opinião de alguém aqui.

PS:

e só pra lembrar: o legado também serve para separar as crianças dos adultos. :)

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